sábado, 19 de dezembro de 2009

[ contextualizando ]


Ao rever meu album de fotos percebi que o cenário predominante era a praia. Sou uma daquelas adoradoras do mar, passo horas sentada contemplando-o. É onde me sinto em paz. Logo surgiram as frases: "- mas já tá na praia, de novo!?"

Desde que entrei na tal da 'UFES' esses momentos foram um pouco mais raros. Mas foi durante o semestre em que cursei Paisagismo 01 que comecei a perceber o quanto essa paisagem tinha influência na minha vida.

Meus sábados e domingo eram sagrados: Manguinhos. Do nascer ao se por do sol. O Japa era o companheiro de quiosque e conversas. Tempos bons...

Um ano depois, a escolha do 'tema de PG'. O que fazer?! "- Praia.!" Era a resposta mais que óbvia. Não poderia ser diferente. Mas qual?! Mas o que?! Mas porquê?!

As imagens demosntram um pouco do que muito incomoda.


Lagoa do Baú. Carapebus. Serra.

Ponta dos Fachos. Manguinhos. Serra.

Praia da Chaleirinha. Manguinhos. Serra.


E introduzo questões...


Na maioria das cidades litorâneas brasileiras a ampla utilização da faixa de praia como local de atividades ligadas ao lazer e residência, tornam estes lugares valorizados do ponto de vista imobiliário.


...

Macedo (2005) diz que a decorrência imediata deste processo tem sido a perda constante de recursos ambientais e paisagísticos e, portanto, de certo tipo de valor turístico dessas áreas, pois destrói justamente o principal atrativo das áreas para aquele turista, que busca a rusticidade e a convivência com os elementos considerados mais “naturais”.


...


De acordo com o Código Municipal de Meio Ambiente (ARTIGO 66, LEI Nº 2.199/1999) são espaços territoriais especialmente protegidos: as áreas de preservação permanente; as reservas legais das propriedades rurais, assim definidas na legislação federal pertinente; as unidades de conservação do município, do Estado ou da União; as praias, a orla marítima, e os afloramentos rochosos do município; as lagoas e as nascentes de cursos d’água; as áreas verdes especiais; os morros e montes.



MACEDO, Silvio Soares. Urbanização, litoral e Ações paisagísticas à beira água. Seminário Nacional sobre regeneração Ambiental de Cidades: águas Urbanas. CD-ROM. Organizado por Ver Regina Tângari, Mônica Bahia Schlee, Rubens de Andrade. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2005.



[ teoricamente, é claro... ]

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

[ OBJETIVO ]

Antes, vou fazer umas considerações:

- É um esforço individual.

- É um sonho. Mas “Eis o que dá ousadia a nossos sonhos: eles podem ser realizados.” (Le Corbusier, 1992).
- A área é enorme, mas acho que consegui 'dar conta' do recado.

- O tema é extremamente delicado. Áreas de proteção ambiental, industrias, vias de circulação e comunidades. Adoro desafios!
- O objetivo é propor um Sistema de Espaços Livres que atenda às funções: de Circulação (acessibilidade e mobilidade, priorizando a locomoção não motorizada); de Equilíbrio Ambiental (com a proteção e conservação das áreas de interesse ambiental); e de Recreação (possibilitando a sociabilização dos espaços livres públicos, oferecendo áreas de descontração e lazer na intenção de permitir uma apropriação consciente por parte da população local na manutenção e uso - com a existência de roteiros culturais e de educação ambiental).

- Onde?! 'Zoia' ai em baixo...


[ POR QUE CONTRATÁ-LO ]
Esta carta do Arquiteto João Batista Vilanova Artigas ilustra de maneira clara a importância da contratação de um arquiteto. Carta retirada do livro Vilanova Artigas Série Arquitetos Brasileiros, paginas 49, 52 e 52.

Carta ao cliente,

Confesso que não me assustei muito ao ler sua carta contando o resultado da conferência para autorização de um projeto para o São Lucas. Estas coisas acontecem sempre porque, por falta de costume, quem constrói, nem sempre avalia o plano de como deveria fazê-lo. Se eu insisto em aconselhá-lo mais uma vez para que consiga um arquiteto para dirigir os trabalhos de seu hospital, não é somente porque desejo muito trabalhar para um hospital modelo, mas porque, e principalmente porque, não posso crer que uma obra, da importância da sua, possa nascer sem estudo prévio. É vezo brasileiro fazer as coisas sem plano inicial perfeitamente elaborado; quando se pergunta sobre como ficarão estes e aqueles pormenores, a resposta é sempre a mesma: Ah! Isso depois, na hora, veremos.

Assim fazem-se as casas, os prédios, as cidades; nesse empirismo vive a lavoura, a indústria e o próprio governo. O planejamento, mercadoria altamente valorizada em todo mundo para qualquer realização, não encontrará entre nós o ambiente propício enquanto nós moços não nos capacitarmos da sua necessidade imprescindível. Poderia continuar conversando com você sobre a grande vantagem de planejar com antecedência, até amanhã, sem esgotar todos os argumentos e provavelmente terminaria por dizer que é até demonstração de patriotismo e inteligência. Mas com isso não convenceríamos ninguém; talvez muito mais vantajoso seria confinar a discussão entre os limites das vantagens particulares, individuais de aplicar o método. Então vejamos. A pergunta é sempre a mesma; -"que vantagem poderíamos ter em gastar CR$ 65.000,00 em um projeto somente? O projeto não é o prédio; muito pelo contrário, somente uma despesa a mais! Contratando a construção o projeto viria de graça, feito pelo próprio construtor e nós economizaríamos 5% sobre o valor do prédio. Com esses 5%, no caso de querermos gastá-lo, até poderíamos melhorar algumas condições do edifício; enriquecer alguns materiais etc..."

Garanto que os argumentos acima lhe foram expostos mais de uma vez. São os que sempre vejo empregados em ocasiões dessas e nunca mudam. São também os mais fáceis de rebater e os menos inteligentes.

Senão vejamos: "...O projeto sempre custa alguma coisa. O construtor que o fizer terá, sem dúvida que empregar engenheiros e desenhistas para isso. Terá de empregar gente para calcular concreto, para calcular aquecimento, eletricidade, etc... O construtor cobrará essa despesa do proprietário através da comissão para a construção. Tanto isso é verdade que, se você apresentar aos construtores um projeto completamente pronto, ele cobrará percentagem menor para a construção porque dirá, "não terei despesas no escritório". Suponhamos que a taxa de honorários para a construção seja de 10 a 12%, inclusive o projeto. Se você der o projeto, encontrará quem lhe faça por 6 ou 8%. Daí você conclui que o projeto que você pagou ao arquiteto 5%, já representa nessa ocasião somente 1% ou 2% a mais do que o preço geralmente previsto.

Mas eu desejo provar que o plano geral, feito com antecedência, é economia e não despesa. Então vamos continuar. Ninguém pode negar, nenhum construtor, nenhum cliente, que o projeto feito pelo técnico, contém em si uma previsão maior dos diversos detalhes do que o projeto rabiscado pelo construtor e verificado pelo proprietário. Faça uma experiência. Tome um plano que esteja em início de construção e pergunte a quem o dirige: por onde passam os canos de aquecimento? Por onde passam os canos de esgoto? O senhor vai fazer antes isso ou aquilo? Garanto que não sabem.

Responderão: "provavelmente passarão por aqui ou ali, farei isto ou aquilo antes. Se na ocasião de executar um serviço, verificar-se um contratempo qualquer, um cano que não pode passar porque tem uma porta, um esgoto vai ficar aparecendo no andar de baixo; o construtor resolve em função do problema, no momento. Ele dá voltas com o cano ou faz um forro falso para esconder o esgoto que iria aparecer em baixo. Entretanto se isso tivesse sido previsto, não precisaria de forro falso ou qualquer outra coisa. No papel, teria sido procurada e encontrada a solução mais econômica, para o caso, a mais bonita.

Consulte um construtor experimentado ou alguém que já tenha construído e todos serão unânimes em contar-lhe pequenas calamidades que apareceram. Eu já ouvi diversas vezes, por exemplo: "Quando colocamos as fundações no terreno nós vimos que o quarto ficaria enterrado. Então levantamos as fundações mais cinqüenta centímetros para dar certo. Por isso deu uma escada na entrada e ficou com um porão, etc... Se você calcular quanto mais caro ficou a imprevisão, você verá a vantagem de ter um projeto estudado. O arquiteto teria dado uma disposição diferente nos cômodos de maneira que o tal quarto não ficasse enterrado, sem ter que aumentar as fundações e assim economizaria o dinheiro com o qual se faria pagar.

Se o proprietário não ganhasse nada, ainda teria para si uma solução melhor e um motivo para valorizar seu imóvel. O construtor por exemplo não projetaria as instalações elétricas. Ele chamaria um instalador "prático" e o homem disporia a coisa à sua vontade. Usaria os canos que ele quisesse e os fios que achasse melhores. Bem curioso, não é ? Poucos entendem disso e ninguém iria fiscalizar o homem. Acontece, porém que os fios, quando são fios demais em relação à corrente que transportam, dão muitas perdas, e essas se traduzem em despesa mensal maior de energia para você durante os 50 ou 100 anos de funcionamento do hospital; assim você pagaria 100 vezes um bom projeto de distribuição de eletricidade. Estou apenas repetindo casos cotidianos.

Do funcionamento do hospital ainda mais, o construtor provavelmente não entende e nem terá tempo suficiente para estudar. Ele não é especializado em hospitais porque isto é Brasil e depois não estudam porque não é o seu métier. Ora, assim sendo, ele vai confiar em você. Você conhece hospitais já feitos e em funcionamento, como hospitais, não como construções. Os seus preconceitos, a respeito, o construtor repetirá com o dinheiro de seu bolso. As soluções que, para alguns casos que você viu, são soluções econômicas poderão constituir soluções caríssimas, no seu caso. Rematando, sua casa de saúde não teria o melhor aspecto porque faltou um artista.

Arquitetura, é construção e arte. Arte. Arte não tem livro de regulamento que ensine. Nasce dentro de cada um e desenvolve-se como conjunto de experiências. Procure um homem que possa das à sua casa de saúde, além das características de um hospital eficiente pelo perfeito planejamento das diversas sessões, um valor artístico indiscutível.

O valor artístico é um valor perene, enorme, inestimável. É um valor sem preço e sem desgaste. Pelo contrário, aumenta com os anos à proporção que os homens se educam para reconhecê-lo. O valor artístico subsiste até nas ruínas. Os anos correm e desgastam o material, enquanto valorizam o espiritual.

Com a consciência limpa termino minha proposta. Está em suas mãos a responsabilidade de decidir entre os caminhos. De um lado eu me coloco, não só, mas como representante dos arquitetos brasileiros, defendendo a economia, a ordem e acima de tudo, o futuro. De outro lado, o empirismo, a reação, a imprevisão.

Qualquer solução que você venha a dar não mudará as relações entre nós, nem sua opinião futura sobre o que acabo de escrever. Se o prédio for bom, bem projetado, bem planejado, por um bom arquiteto, você gostará, todos gostarão; se ele não prestar, se custar muito, se não funcionar, ser for feio ou sem personalidade, sem valor artístico, sem plano nenhum, o resultado será o mesmo. Em todos os dois casos você adquirirá experiência e acabará por trabalhar sempre do meu lado e com os meus argumentos. Nós venceremos sempre como eu queria demonstrar.

Pague pois o que eu pedi. É pouco em relação às vantagens futuras. Ou não pague, e as vantagens serão as mesmas, para a sociedade evidentemente, não para você.

Com um abraço afetuoso do amigo certo,

Vilanova Artigas
São Paulo, julho de 1945

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


[ South Waterfront Greenway ]

Walker Macy in collaboration with Thomas Balsley Associates led the planning of a greenway along the Willamette River in a new urban high-rise district. The plan strikes an unprecedented balance of major habitat restoration with high density human activity.

http://www.walkermacy.com/projects/waterfront_development/south_waterfront_greenway


[ Gateway Green Streets ]

Walker Macy assisted the Bureau of Environmental Services by developing a stormwater management master plan for green streets in the Gateway Urban Renewal Area in Portland. The stormwater management plan identifies innovative and effective strategies for feasible green street design, while giving consideration to transportation.

http://www.walkermacy.com/projects/streetscapes/gateway_green_streets/

sábado, 21 de novembro de 2009




[ De que forma um sistema de parques pode transformar uma região frágil ambientalmente e socialmente?

Como recuperar a auto-estima de uma população historicamente marginalizada?

Esses foram os primeiros questionamentos feitos pela equipe, e a partir deles é que chegamos ao conceito criado por Kevin Lynch de Paisagens Participativas que guiaria todo o nosso processo de criação, tentando ao todo tempo aliar aspectos antrópicos e naturais em um desenvolvimento de longo prazo e sustentado.

Mais do que apenas lazer e espaços de convívio as pessoas que ali habitam necessitam de infra-estrutura básica, oferta de serviços, acesso a informação, ou seja, a base para que se sintam cidadãos de fato.

Com isso, a primeira idéia foi criar não só áreas de lazer e convívio, mas sim uma rede de equipamentos, na tentativa de inicialmente atender necessidades básicas da população, e de fazer que as pessoas que ali habitam se apropriassem dos parques não só como um mero local de descanso,mas que esse tivesse um papel importante e fundamental na sua formação.

Fazer com que os parques façam parte da vida delas, que sintam orgulho de si mesmas e do local onde vivem, e melhor do que isso, fazendo parte do processo de funcionamento dos parques. Acabar com o estigma, quebrar as fronteiras sociais por meio da paisagem, esse é o objetivo. ] http://www.vitruvius.com.br/institucional/inst223/inst223_01.asp


Fotos: Desenvolvimento do projeto na foz do Córrego Manguinhos (trecho 03).

[ MÉTODO DE TRABALHO ] OSCAR NIEMEYER

“Não vou apresentar o método ideal de elaborar um projeto, pois outros processos mais práticos e eficientes podem existir. Vou apenas contar como trabalho, como elaboro meus projetos de arquitetura.

Primeiro tomo contato com o problema, o terreno, o programa, o ambiente onde a obra vai ser construída. Depois, deixo a cabeça trabalhar e durante alguns dias guardo comigo no inconsciente o problema em equação, nele me detendo nas horas de folga e até quando durmo ou me ocupo de outras coisas.

Um dia, esse período de espera termina. Surge uma idéia de repente e começo a trabalhar. Analiso a idéia surgida e começo a fazer meus desenhos. Às vezes é uma planta, um partido arquitetônico que prevalece, outras vezes é um croqui, uma simples perspectiva me agrada e procuro testar. Escolhida a solução, inicio o meu projeto, na escala 1:500. É a escala que prefiro, que me prende melhor à solução de conjunto indispensável. E começo a desenhar o projeto, vendo-o como se a obra já estivesse construída e eu a percorrendo curioso.

Com este processo, sinto detalhes que um desenho não permitiria, detendo-me nos menores problemas, sentindo os espaços projetados, os materiais que suas formas sugerem etc. Uma vez, elaborei um texto explicando as colunas do Palácio do Planalto, mostrando como as fixei como nesse passeio imaginário, entre elas circulei, apreciando suas formas, modificando-as, procurando criar novos pontos de vista, o espetáculo arquitetural.

Às vezes, o que não raro acontece, o programa proposto é desatualizado. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Universidade de Constantine, quando recusei a solução apresentada. E projetei dois grandes blocos de ensino: um, de classes, com salas de aula e auditórios; e outro, de ciência, com todos os laboratórios e setores de pesquisa, obtendo assim uma solução mais flexível, mais econômica, capaz de explicar a universidade integrada dos tempos atuais.

Terminada essa fase, convoco os técnicos especializados, com eles discutindo o sistema estrutural imaginado, o dimensionamento de apoios e vigas, os serviços técnicos de ar-condicionado que complementam a arquitetura.

O projeto está pronto. Termino texto explicativo que representa a prova dos nove dos meus projetos. Se faltam argumentos, alguma coisa deve ser acrescentada.

E faço a maquete que tudo confere.” NIEMEYER, Oscar. Conversa de Arquiteto. 1a ed. Rio de Janeiro-RJ. Editora Revan e UFRJ Editora, 1993. pp. 42-43.

Foto: Trecho 04 - Manguinhos (Vila, Praia da Chaleirinha e Praia da Baleia).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

[ retroinovação ]

Antítese da mata selvagem, a "selva de pedra" – construção humana, coletiva, artificial – revela em uma primeira vista a forte contradição entre a cidade e a natureza. De fato, a integração da natureza e da construção traz alguns problemas práticos, técnicos e estéticos. A vegetação protege. Mas também esconde, encobre, causa estragos. Não é à toa que, para um grande número de arquitetos, a natureza – e, na sua versão urbana, a vegetação – é impopular. Ela cria uma atmosfera suspeita, aumenta a sensação de risco, gera custos, coloca obstáculos às construções. A ponto de um vencedor do Pritzker, Paulo Mendes da Rocha, declarar que "a natureza é uma droga, não serve para nada, é um trambolho", em entrevista à revista Caros Amigos.

A análise de temas contemporâneos e urgentes, como a sustentabilidade e o aquecimento global, abre um novo olhar sobre a paisagem urbana. Uma mudança de paradigma revela que os benefícios reais da vegetação ultrapassam os supostos problemas levantados. Se houver bom planejamento e eficiente gestão dos investimentos, os custos de manutenção de árvores em áreas urbanas serão muito inferiores aos benefícios econômicos que geram para todos. Sem descartar os crescentes benefícios climáticos que podem trazer no futuro.

Simulação da relação volumétrica estimada entre os vários materiais convencionais utilizados na construção e a biomassa viva na cidade de São Paulo: cubos de materiais, com altura total aproximada de 844 m, com o mesmo comprimento da Avenida Paulista, versus um único cubo de biomassa viva, com 771 m de altura, com densidade foliar típica de uma árvore.

Problemas ambientais e climáticos da Metrópole

O cientista inglês James Lovelock recentemente lançou um alerta aos povos que vivem em áreas tropicais do planeta. "Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável antes mesmo da metade do século. Lá pelo ano 2040, a maioria das regiões tropicais, incluindo praticamente todo o território brasileiro, será demasiadamente quente e seca", disse ele à revista Veja, em 2006.

Torcendo para que Lovelock esteja enganado, os primeiros lugares a serem abandonados por conta das mudanças climáticas e da perda da qualidade de vida, serão as cidades. Núcleos da produção, berços da cultura urbana e das finanças. A sobreposição dos efeitos climáticos globais e locais transforma as cidades – sob o clima tropical – em verdadeiras "ilhas de calor". E traz consigo, em seu ritmo cada vez mais acelerado, problemas ainda muito mais graves, tais como desconforto, desigualdade socioambiental, aumento de estresse térmico, aumento de consumo e dos custos de energia para o resfriamento de imóveis e de automóveis. Enfim, prejuízos crescentes para a economia e para o desenvolvimento (sustentável) das cidades localizadas em regiões de clima predominantemente quente.

Embora as áreas urbanas no Brasil representem apenas 2% do território nacional, mais de 80% dos brasileiros moram nesses gigantes hot spots. Dentro do município de São Paulo, as medições de temperatura do ar já mostram diferenças de até 12ºC entre o centro urbano e seu entorno rural distante. Isso significa o dobro do previsto nas mais pessimistas estimativas sobre as mudanças climáticas globais. Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Meteorologia, divulgado em abril de 2007, a temperatura da cidade de São Paulo subiu, em quase um século, o triplo do observado na média mundial. O trabalho foi realizado a partir da análise de médias históricas anuais.

Causa local: o uso do solo

A construção desordenada de metrópoles, com materiais e geometrias não-adaptados segundo aspectos climáticos, trouxe um desequilíbrio imprevisto ao bem-estar urbano. A impermeabilização do solo em conjunto com o desmatamento resultou em um baixíssimo percentual de cobertura vegetal. Como conseqüência, ocorreu o aquecimento local das superfícies urbanas. O asfalto em si não é algo tão ruim – desde que seja sombreado.

A cobertura vegetal é, do ponto de vista global e local, um regulador climático fundamental do planeta. O planejamento dessa cobertura – tanto pelo setor privado, no projeto arquitetônico e paisagístico de uma obra, quanto pelo setor público – é importantíssimo, dada a sua influência, positiva ou negativa, nas condições gerais.

Os solos abertos associados à vegetação regulam o balanço hídrico e energético resultando em superfícies mais frias. O conjunto favorece a absorção e a infiltração de água (o que evita enchentes), o sombreamento e a evaporação controlada. Em conseqüência, o conforto térmico e a eficiência energética fazem diminuir a necessidade de resfriamento artificial. Problemas – e soluções – urbanos que não se restringem aos limites da porta do edifício e ao ambiente externo.

Em escala regional, a capacidade da vegetação de transformar grandes partes da radiação solar em vapor d'água pode gerar maior fração de calor latente dispersível, em vez de calor sensível. A vegetação absorve, filtra, retém e armazena todos os impactos naturais e também aqueles gerados pelo homem e danosos para nós mesmos. Entre esses impactos podemos citar a fortíssima radiação solar, as tempestades, o barulho, o CO² e outras emissões – todos presentes em abundância nas grandes cidades tropicais. Sem esquecer todo o ar respirado, desde sempre, pela humanidade.

Ainda não existe nenhuma solução técnica e altamente capaz de substituir e garantir as mesmas funções da vegetação viva, com milhões de metros quadrados de área (ou seja, de massa) foliar. Mas existem tentativas de substituição parcial.

Um exemplo interessante é o projeto Three Air Trees (Três Árvores Aéreas), criado pelo escritório Ecossistema Urbano, que inventou réplicas de árvores – denominadas "próteses" – que evaporam a água e resfriam o meio ambiente urbano, tal como uma árvore verdadeira, sombreando o espaço público da cidade de Vallecas na Espanha.

Projeto Three Air Trees (Três Árvores Aéreas) que emprega água e vegetação na arquitetura do espaço público.

Outra referência importante é o conceito da Expo'92 em Sevilha, desenvolvido pelo escritório Site Arquitetos, que incorporou vegetação própria junto com pulverizadores de água para aumentar a taxa de evaporação e criar sombra capaz de gerar qualidade no espaço público.

O trinômio sOcioeconômico-ambiental urbano

As atuais transformações do tecido urbano de São Paulo trazem maciças contradições socioeconômico-ambientais. Há, por exemplo, uma alta densidade construída em contrapartida a uma diminuição crescente da população em regiões centrais, abandonadas por causa da perda de qualidade, embora, ao contrário da periferia, apresentem boa oferta de transporte público.

Se, por um lado, tem-se a degradação do ambiente público, por outro, se nota a sofisticação dos espaços restritos e privados (condomínios fechados e shopping centers), verdes ilhas com "clima de oásis", circundadas por mares aquecidos, espaços de passagem ressecados, empobrecidos, ameaçadores e cada vez mais próximos.

Outro ponto a ser ressaltado, a reforçar a degradação do espaço público, é a utilização privilegiada do transporte individual, conceito fundamental do Modernismo e restrito a cerca de 20% da população paulistana. Tudo leva a crer que a infra-estrutura sem o mínimo de planejamento não permite boa integração com o meio ambiente urbano.

No conceito tradicional de construção das cidades, a vegetação quase sempre foi percebida como desperdício de espaço, sem, portanto, nenhum valor econômico. Recentemente, essa noção começou a mudar. O verde está se tornando – talvez pela primeira vez na história da humanidade – elemento da moda e excelente argumento de venda, o que traz, não deixa se ser irônico, certos benefícios para a cidade inteira.

Integração da vegetação na arquitetura, como ação de interesse público e privado

Pequenos oásis de contemplação urbana, ligadas aos negócios, ao bem-estar e à qualidade climática em meio ao caos desordenado e asfaltado. É assim que deveríamos caminhar em direção a novos conceitos. Se abríssemos mão do isolamento em favor de uma planejada abertura para o bem público, a vida nas grandes cidades poderia se tornar um verdadeiro paraíso. A idéia não é totalmente nova e vários exemplos podem ser vistos em Cingapura, cidade tropical como muitas das metrópoles brasileiras.

Os edifícios e suas áreas livres, na era da sustentabilidade, não podem mais ser vistos simplesmente como objetos solitários, isolados e fechados. É importante enxergá-los integrados à cidade, à paisagem urbana (e ao meio ambiente urbano) e ao mundo. Interagindo com o planeta em relação recíproca, como partes de um mesmo organismo.

Para uma boa integração do privado e do público, a árvore deve ser vista não mais como objeto isolado, vazio e perdido no meio ambiente urbano, mas como elemento que pode melhorar e diminuir os impactos sócio-ambientais do edifício graças à sua sombra e ao seu entorno no mundo – e vice-versa. O desenho da fachada (envelope da edificação), como separação e interface entre o público e o privado, torna-se crucial para o desenvolvimento sustentável do espaço urbano.

Principalmente no exterior, a unissonância com a natureza e o lugar é considerada como uma das particularidades mais marcantes da arquitetura brasileira. No Brasil, existem de fato abordagens muito interessantes, mas poucas obras construídas nessa linha de pensamento, que busca a mais profunda integração da construção, da arte e da natureza, do público e do privado.

Niemeyer, mesmo aos 100 anos, ainda procura o natural nas formas arqueadas, femininas e montanhosas. Mas essa busca não se estende às matérias-primas que utiliza. Grande oportunidade para Burle Marx criar um estilo próprio de construção tropical, mundialmente reconhecido e fortemente interligado às obras de Niemeyer, no qual se vale de exuberante vegetação tropical.

Lina Bo Bardi também procurou a mais profunda integração da arquitetura com a natureza, à que chamou de "binômino", e percebeu a vegetação como uma das mais sutis substâncias na sua arquitetura. Lina Bo levou em conta as transformações naturais e suas inevitáveis conseqüências, seu próprio processo de envelhecimento corporal e estético. Vilanova Artigas desenvolveu em sua arquitetura aspectos associados à integração visual e climática com o meio circundante, criando prédios públicos sem portas, caso do próprio edifício da FAUUSP.

Hoje imperam na paisagem urbana paulistana as mais "novas" (embora vencidas) visões cristalizadas e importadas, principalmente dos Estados Unidos, sem nenhuma adaptação ao clima e à cultura brasileira. Em função da abundância de energia de baixo custo utilizada para resfriamento e de uma auto-imagem corporativa e globalizante, a arquitetura brasileira contemporânea tornou-se difusora do chamado conceito "Ice-T": o paradoxal princípio de aquecer um líquido para depois resfriá-lo. Revela-se, assim, no Brasil atual, o elo perdido entre o paisagismo público e a arquitetura privada, entre a natureza cuidada e o homem globalizado e urbanóide.

Recentemente, novos conceitos foram lançados por vários escritórios de arquitetura, entre esses Tryptique, Baptista, Haussmann & Spangenberg, e Kogan, os quais levam em consideração o "enverdecimento" dos edifícios como novo valor estético e benefício econômico. Esses projetos, ainda não construídos, alinham-se com clareza a conceitos desenvolvidos em todo o mundo: na Europa, por Piano, Foster, Rogers, Herzog & DeMeuron, Hundertwasser, Gaudí; na América do Norte, pelo site Arquitetos; pelos argentinos Ambasz e Wright, por Buckminster-Fuller; na Ásia por Yeang e na África por Michael Pearce.

Ainda há aqueles que acham que a arquitetura contemporânea (ainda moderna?) não deveria mudar à mercê da necessidade de causar menos impacto ambiental. E que fachadas e telhados verdes, placas fotovoltaicas e painéis para geração de água quente não poderiam ser considerados elementos do desenho arquitetônico. Estaremos com medo de mudanças?

Este texto tenta mostrar que é exatamente aqui, na mudança de paradigma do desenho, que se encontra uma oportunidade para a criação de uma nova arquitetura tropical que, sem ser nostálgica, leva em conta o que havia de verdadeiramente bom "nos bons e velhos tempos". Uma arquitetura que, talvez, poderá ser chamada de "retroinovação".

http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/167/artigo72655-1.asp

Jörg Spangenberg é arquiteto graduado na Alemanha com mestrado pela PUC-Rio. Fez estágio no escritório de Oscar Niemeyer, no Rio Janeiro, e está doutorando pela Bauhaus em convênio com a USP; subsidiado pela Holcim Foundation for Sustainable Construction. É consultor de projetos sustentáveis e tem trabalhos desenvolvidos no Brasil e no exterior.

[ Nova York ganha parque público sobre linha férrea ]

Projeto assinado pela Field Operations e pelo escritório Diller Scofidio + Renfro prevê a construção de um parque público com áreas verdes, deques e parque infantil sobre um antigo elevado férreo de 2,5 km

Soluções para estruturas urbanas indesejadas causam sempre polêmicas - em São Paulo, um bom exemplo foi o concurso para a revitalização do Elevado Costa e Silva, o Minhocão, realizado em 2006.

O projeto vencedor, de Juliana Corradini e José Alves (Frentes Arquitetura), previa a construção de um parque elevado sobre as pistas, que seriam "encaixotadas" com uma estrutura metálica e receberiam tratamento acústico e ventilação especial.

Construído nos anos 90, o parque Promenade Plantée, em Paris, transformou um elevado ferroviário de cerca de 4,9 km em uma passarela para pedestres. Agora é a vez de Nova York: a construção de um parque elevado foi a proposta adotada no High Line, atualmente em construção no oeste de Manhattan, em Nova York - a primeira fase deve ser entregue no fim de 2008.

O projeto, assinado pela Field Operations e pelo escritório Diller Scofidio + Renfro, prevê a construção de um parque público com áreas verdes, deques e parque infantil sobre um antigo elevado férreo de 2,5 km que passa entre alguns prédios ao longo de 22 quarteirões. Construída entre 1929 e 1934, a ferrovia perdeu a utilidade com o desenvolvimento das estradas interestaduais que cortam os Estados Unidos, sendo desativada em 1980.


O elevado foi tomado pelo mato nos últimos anos - uma espécie de "prévia desorganizada" do visual que deve ocupá-lo em breve.A iniciativa de revitalizar o elevado ganhou força com a Associação Amigos da High Line (Friends of the High Line), uma organização não-governamental fundada em 1999.


O ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giulianni, chegou a autorizar a implosão da estrutura, mas com forte apoio da população a associação conseguiu reverter a situação. Após o concurso para escolha do projeto, em 2003, a prefeitura da cidade reservou 50 milhões de dólares para estabelecer o parque - hoje, o orçamento é de 170 milhões de dólares, montante obtido com os governos federal e municipal, além de doações privadas.



Para Juliana Corradini, uma das autoras do projeto para São Paulo, estruturas elevadas em desuso têm um potencial muito grande de transformação. "A idéia é transformar uma via em algo inédito para a cidade. É utilizar o potencial de transformação e pensar em outro aproveitamento para a estrutura", completa.Há também quem aposte no desmonte - ainda que seja uma solução mais cara e complexa.


O Escritório Experimental do Mackenzie, por exemplo, elaborou na época do concurso para o Minhocão uma proposta para o desmonte do viaduto (AU 156). "Propusemos o desmonte pelo fato de estar em uma área central histórica e porque ele degrada brutalmente seu entorno", afirma a professora Anne Marie Sumner, coordenadora do projeto.

Para Anne Marie, os parques elevados são uma solução paliativa, que não resolvem o problema urbano. "Não acredito em parque elevado, acho que as pessoas andam no chão.

A praça e o parque são um ponto de encontro dos cidadãos em todas as direções. Essa ligação multidirecional, de poder acessá-la por todos os lados, é que é a maravilha da praça pública", critica. "A idéia de um parque vertical é uma maquiagem, um paliativo - e paliativo é do que o Brasil não precisa", completa.


Por Andressa Fernandes, reportagem publicada na Revista AU, 18/Agosto/2008,

http://www.piniweb.com.br/construcao/urbanismo/nova-york-ganha-parque-publico-sobre-linha-ferrea-99254-1.asp